• Ana Palombo

Meu discurso empreendedor (porque o dos outros me incomodava)


Eu inventei meu próprio discurso empreendedor. Isso porque nunca gostei do termo Empreendedorismo. Até hoje, mesmo me vendo como uma empreendedora, torço o cantinho da boca ao falar essa palavra. Só que nunca parei para analisar porque tinha tanta repulsa a esse nome. Foi no evento da Conquer que passei a questioná-lo e depois desse artigo da Maira Peres que decidi escrever sobre ele. Por fim, talvez eu tenha chegado a uma conclusão.


O que me incomoda no discurso empreendedor


O que me incomoda no termo empreender não é sua definição, pois ela por si só é bem cativante. O que me incomoda é o discurso que as pessoas usam para se definirem empreendedoras.


Calma, vou explicar melhor.


Sabe aquela conversa sobre ser seu próprio chefe, ficar rico com uma ideia milionária, montar a melhor empresa do mercado em 2 anos, etc. Esse discurso muitas vezes é falado pressupondo alguns fatos que não são bem explicados. Por exemplo, para se abrir uma empresa você precisa de dinheiro. Tanto dinheiro que, se você realmente colocar na ponta do lápis TODOS os gastos, talvez sua ideia nem chegue no final da página. E, se sua empresa realmente sair do papel, pasmem, mas sua vida não vai parar. Você gastou um montante apenas para começar um novo negócio, só que ainda vai ter que ter lucro para se sustentar. Então ou você tem alguém para te ajudar nas contas da casa ou você aprende a viver de Miojo por um bom tempo.


Não quero ser hipócrita. O discurso sobre empreendedorismo do senso comum não mente, isso não tenho como negar. Eles realmente deixam no ar que você vai precisar de dinheiro, tempo e muito trabalho. Só que o que me incomoda é que eles não contam o que está nas letras miúdas do final do contrato.


Empreender não é um ato solo (por mais que pareça ser)


Eu descobri que o que me incomodava no discurso empreendedor é que ele deixava de lado a pessoa que tem os filhos, a casa e o trabalho pra cuidar e precisa de MUITA resiliência para conseguir empreender. O que me incomodava no discurso empreendedor é que ele deixava de lado todas as relações de família, amigos, namorado(a) que são abaladas quando você passa a só se dedicar à construção do seu amado sonho empreendedor.


Como você pode ver, matutei bastante sobre isso. Ao passar pelo raciocínio do parágrafo anterior, eu percebi que nunca tive repulsa da palavra "empreendedorismo". O que acontecia é que eu não me identificava com o discurso empreendedor que as pessoas estavam falando. Na minha cabeça, a pessoa que estava falando tinha um respaldo gigantesco para construir o seu negócio. Ele tinha estudado fora do país, seus pais lhe davam casa, comida e estariam ali para recebê-lo caso tudo desse errado.  Veja bem, o que me incomodava não era o fato da pessoa TER tudo isso, não era inveja. O que me incomodava era simplesmente o OMITIR todas essas condições da sua fala.


Essas são as letrinhas no final do contrato. O sucesso de um grande piloto de Fórmula 1 leva apenas ele ao pódio, mas toda a equipe compartilha desse sucesso. São mais de 50 pessoas que ficam nos bastidores e todas elas auxiliam o piloto para que ele possa vencer uma corrida de cada vez. É um processo de equipe e de formiguinha. Por que as pessoas não falavam sobre isso?


Vamos repensar o discurso sem a tal meritocracia


Foi então que finalmente percebi que o que me incomodava no discurso empreendedor era o conceito de meritocracia. Me deixa possessa a arrogância em afirmar que "eu cheguei aqui por mérito" sem perceber que talvez essa pessoa que fala tenha usufruído de um montante de favores, recursos, oportunidades que foram dadas a ela devido aos contatos que lhe foram apresentados, ao bairro em que vive, aos lugares que pode frequentar, à escola que frequentou, etc. Não podemos excluir a nossa história do nosso sucesso e ela inclui a nossa condição social.


Talvez essas pessoas não façam por mal e com certeza não estavam fazendo isso apenas para me irritar (tenho ascendente em leão, mas não sou tão egoísta assim). Elas apenas aprenderam a viver sem se preocupar ou sem questionar sua condição social. Mas a faculdade que fiz, os amigos que tenho e as conversas que me insiro sempre me alertam e me ajudam a criticar e questionar tudo. E o discurso de meritocracia incomoda a qualquer um que parar para analisar.


O termo Meritocracia é formado pela palavra do latim mereo ('ser digno, merecer') e do grego antigo krátos ('força, poder'), logo o termo estabelece uma ligação direta entre mérito e poder. Só que muita gente já estudou e ressaltou as falhas e insuficiências desse termo e meu foco aqui nem é explicar todas elas. O que quero chamar atenção é apenas para uma das falhas principais do termo, que é a ausência de igualdade de oportunidades

Todos conseguem empreender, disso não tenho dúvidas. Mas todos conseguem empreender sozinhos, começando do zero, sem respaldo, sem conhecimento, sem oportunidade?


As super-empreendedoras


Empreender é sim um ato de poder. Diria até que é um ato de super-poder. A gente tem que se desdobrar em 3 ou 4 pessoas para conseguir dar conta de todas as tarefas. E se você for um eupreendedor (obrigada Ana por me ensinar essa expressão que vou usar pra sempre, rs) talvez tenha que fazer o papel de ainda mais gente. Então, meus caros, quem consegue empreender é muito poderoso.


Só que esse poder não foi lhe dado à toa, pequeno Padawan. Quando for compartilhar sua história, coloque-se como protagonista de um grande espetáculo. Jamais absorva o brilho dos demais e descreva sua vida como um monólogo. Empreender é uma aventura incrível, ô se é, mas não é solitária. E querem saber como eu consegui dar essa reviravolta toda e mudar meu jeito de ver tudo isso? Através do empreendedorismo feminino.


Por estar nessa paranoia de empreender, comecei a ir em vários eventos sobre empreendedorismo. E se por um lado alguns me frustravam muito, por outro comecei a perceber que as mulheres tinham uma abordagem um tanto diferente sobre o assunto. Socialmente, as mulheres carregam funções diferentes dos homens, o que as leva a enxergar as coisas por uma outra perspectiva. Uma coisa que, pra mim, foi essencial.


Eu aprendi que sou empreendedora através do discurso das mulheres. Ah, essas super-mulheres! Foi por meio de discursos inclusivos, que compartilhavam histórias verdadeiras, de gente como a gente e que às vezes nem tinha tanto a ver com negócios. História simples que faziam eu me identificar. Sem grandes reviravoltas, apenas o básico que diz: empreender não é fácil, mas é uma aventura incrível. 


Meu discurso empreendedor


Eu sei que empreender é assustador. Eu sempre tive medo, ainda mais porque meus pais compartilhavam do mesmo medo e me lembravam sempre que se não desse certo eu não teria salário, eu não teria aposentadoria (pfff quem vai ter, né)... Eles sempre me deixaram apavorada. Na época eu achava extremamente desmotivante, não sabia que era mais uma daquelas pegadinhas em que os pais mostram a realidade pra que a gente se prepare.


Eu queria mostrar pra eles que era possível SIM. Que eu poderia fazer o que gostava e ganhar dinheiro, mesmo trabalhando em casa e com um cachorro esparramado ao pé do sofá. Que se eu trabalhasse o dobro ou triplo do que era possível, seria capaz de construir algo único, com minha cara. Queria deixar a minha marca estampada em algum lugar.


Esse é o espírito empreendedor que eu me apaixonei no começo. Essa garra gigantesca em fazer algo acontecer, mesmo sem saber direito como. Sabem como é, sou canceriana e tenho um quê de amor por esportes e trabalho em equipe. Todas as críticas se tornavam desafios, os obstáculos pediam um plano estratégico de jogada e o emocional seria colocado em prova para eu sair do outro lado ainda mais forte.


Eu me alimentei dessa ideia e sou eternamente grata por eles e todos ao meu redor que compreenderam minha ausência, apoiaram minhas escolhas, ajudaram no meu dia a dia. Sem eles, a frase "eu sou empreendedora" jamais passaria de um sussurro. Hoje, sigo um pouco ausente, peço conselhos e preciso de ajuda. Mas já consigo repetir a frase na frente do espelho, fazendo a pose da Mulher-Maravilha.

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© 2020 por Palombina.

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